Manuel García Morente e a intuição filosófica
Pablo Guimarães
2/27/202610 min read


As Lições Preliminares de Filosofia de Dom Manuel García Morente, bastante conhecidas no Brasil desde sua primeira edição pela Editora Mestre Jou, lograram 8 edições entre 1964 e 1980, além de incontáveis reimpressões até pelo menos os anos 1990, tendo sido obra de referência principalmente em faculdades de filosofia e teologia ao longo de aproximadamente 40 anos.
Eu mesmo sou devedor desta obra em minha formação. Porém, ainda que entusiasmado com as lições preciosas do mestre da Escola de Madri, logo após as primeiras leituras suspeitei de imperfeições naquela tradução. A posterior leitura do texto original em espanhol confirmou minhas suspeitas – mas não só isso. O texto vertido ao português carecia de considerável revisão em inúmeras passagens traduzidas de forma truncada, e ficou claro também que trechos inteiros haviam sido suprimidos naquela edição.
Mas estes não eram os únicos problemas. Este livro, na verdade, possui uma história peculiar. Sendo seu autor espanhol, e tendo sido o livro resultado de um curso ministrado na Argentina, ocorre que, desde sua primeira edição em 1938, tem sido preservado ao longo de inúmeras reimpressões o mesmo conteúdo e forma em solo argentino. Porém, a partir de 1943 (um ano após a morte de García Morente), foi reeditado na Espanha com acréscimos de Juan Zaragüeta Bengoechea sob o título Fundamentos de Filosofía. Esta edição, ademais de ter sido acrescida com contribuições de Zaragüeta, ganhou ainda dois capítulos extraídos de conferências de García Morente, a saber, “El clasicismo de S. Tomás de Aquino” e “Análisis ontológico de la fe”. Acontece que, como dito acima, parágrafos inteiros da edição original foram suprimidos na edição espanhola, capítulos foram refundidos em um único, e a expressão oral das lições foi remodelada para dar a impressão de um texto formal. É nesta edição modificada que se baseia a antiga tradução brasileira da Mestre Jou.[1]
Para esta nova tradução, baseio-me na edição original argentina de 1938, que contém inalterado o curso ministrado pelo autor na Universidade de Tucumán, reimpressa até hoje no mercado argentino.[2] A justificativa para tal é muito simples: a edição original possui uma proposta clara, que é a de ser uma introdução ao filosofar concebido por García Morente, e enquanto tal é uma obra completa em si mesma, não carecendo de outros textos. Seu formato original expressa, além disso, a vontade última do autor.[3]
Barba non facit philosophum
Acima de tantas obras que expõem sob a forma de doutrinas cristalizadas as escolas filosóficas num palavreado vazio de sentido efetivo, as Lições Preliminares são uma obra ímpar no ensino de filosofia, pois privilegia o mergulho na vivência dos problemas e conceitos que inauguraram a atividade filosófica, destacando os momentos memoráveis da filosofia em seus dois mil anos. E não foi por mera escolha estilística que García Morente elegeu essa abordagem, mas sim por compreender que a filosofia é uma prática, um domínio da inteligência que necessita ser vivido. Esta é sua chave pedagógica.
O que o autor concebe sob o termo vivência é simplesmente o instrumento da razão humana conhecido na tradição filosófica como intuição. Com ela, García Morente enfatiza o treino e refinamento da intuição que o homem comum tem em seu dia-a-dia, tomando-a em suas diversas modalidades na história do pensar filosófico.
A exigência de se obter vivência filosófica, tão enfatizada pelo autor logo na primeira lição, se dá por ser esta a condição pela qual alguém pode fazer-se verdadeiramente filósofo. De outro modo, sem o comprometimento existencial daqueles que se propõem ser, nas palavras do autor, “viajantes do continente filosófico”, o que resta é a caricatura não raro representada pelo bacharel em filosofia.
Ninguém chegará jamais a obter a experiência da aquisição de conhecimento proporcionada pela atividade filosófica mediante a mera leitura de livros de filosofia e a esquematização de conceitos compreendidos de forma impessoal, sem intuí-los ou, como diz o autor, vivenciá-los na realidade. E engana-se quem pensa que o autor trabalha sobre o terreno pueril da oposição das escolas que se batem em torno de disputas como as do realismo ou idealismo. O que sai à luz de suas lições é o fundo intuitivo que justifica essas e outras escolas de pensamento, revelando ao aspirante a filósofo as intuições por trás de cada empreendimento filosófico.
O Prof. Sertillanges, autor de A Vida Intelectual, alerta logo no início de seu livro: “Por si só, um texto não é nada, como uma viagem não é nada em si mesma. É preciso uma alma que reúna os valores desta e as frases daquele, fazendo-os brilhar ao contato dessa luz misteriosa que se chama verdade ou que leva o nome de beleza”[4].
A vivência filosófica possui algo de semelhante com o tesouro da literatura de ficção.
Uma forma de diferenciar a literatura ficcional genuína e o subproduto desta consiste em que, enquanto a leitura da primeira oferece à imaginação do leitor uma dramatização viva de situações humanas possíveis antes não identificadas pela coletividade, proporcionando uma vivência dramatizada dessas situações humanas possíveis e tornando-as tangíveis (como podemos depreender na Poética de Aristóteles), a literatura ficcional de segunda categoria não fornece representações de dramas humanos construídos de modo genuíno, mas tão somente uma reprodução esquemática dessas situações em segunda mão, meros clichês, verbalismo expresso em frases de efeito.
Foram convertidos em patrimônio da cultura universal personagens ficcionais como Hamlet, Dom Quixote, Moll Flanders, Raskolnikov, Julien Sorel, Emma Bovary; em escala local, temos Brás Cubas, Luis da Silva, Paulo Honório, Isaías Caminha, entre outros. Estes personagens constituem momentos da literatura de ficção em que dimensões antes não facilmente observáveis da alma humana foram dramatizadas com tal maestria a ponto de terem se impregnado em nossa imaginação, constituindo uma galeria de tipos e dramas humanos que a partir de então se tornam translúcidos, identificáveis, pensáveis, dizíveis.
Algo semelhante ocorre com o ensino da filosofia, que, segundo García Morente, deve ser aprendida através da dramatização de problemas cognitivos que o aprendiz incorpora à sua vida, passando a gozar da habilidade de, ao dramatizar em seu interior essas situações do pensamento, ampliar seu horizonte de consciência e convertê-las em conhecimento conceitual fundamentado, em um saber genuíno, buscando reviver a intuição inicial a partir da qual o filósofo deduziu sua filosofia. Distintamente disso, a filosofia pode ser transmitida como um elenco de esquemas conceituais que constituirão na verdade um saber de segunda mão que o aprendiz nunca verificará no mais fundo de sua consciência, restando apenas um verniz cultural sob a forma do verbalismo oco, e sobre o que Sêneca certa vez disse: “Unus quisque mavult credere, quam judicare”.
Propondo ao estudante de filosofia a atitude interior de um viajante explorador dos territórios do conhecimento, o conjunto das Lições Preliminares de Filosofia plasmado pelo autor consiste em excursões, que inauguram explorações em campos específicos representados em cada lição.
As jornadas pelo território filosófico conduzidas pelo mestre Manuel García Morente constituem um convite personalíssimo à vivência da busca filosófica no que esta tem de essencial: a busca pelo conhecimento fundamentado. Desse modo, o autor apresenta os problemas que o aprendiz precisa experimentar sob a forma dramatizada (individual) da busca intelectual – para além das fórmulas conceituais prontas e transmitidas de forma mecânica no ensino formal da filosofia –, a única forma possível para o verdadeiro filósofo.
O que García Morente propõe ao público é a rejeição à assimilação conceitual vazia, em favor da busca pessoal por meio da meditação dos problemas filosóficos historicamente formulados em conceitos, os quais só têm valor filosófico genuíno se examinados em seus fundamentos intuitivos por cada um de nós. Este exame – e somente ele – é o que pode nos conectar à tradição filosófica.
Tradição: a democracia dos mortos
A tradição filosófica nada mais é do que a busca contínua empreendida por indivíduos de carne e osso movidos por problemas reais, problemas que, por serem comuns à comunidade humana de todos os tempos, se sedimentaram historicamente. Por histórico devemos entender aquilo que, inteligido ou realizado por um indivíduo no tempo, produziu ressonâncias duradouras para além da vida desse indivíduo e foi incorporado – de modo consciente ou inconsciente – à vida da coletividade nas gerações subseqüentes: as concepções de transcendência, de eu, de percepção, de liberdade, de justiça, de moralidade, de comunidade política, e tantas outras que fundam os ramos do conhecimento e que dirigem e orientam nossa vida até hoje, pois é dessas intuições convertidas em especulações filosóficas que nasceram a ciência jurídica, a pedagogia, a arte, a história, a sociologia, a psicologia, e tudo o que consideramos conhecimento.
Esses elementos problemáticos em permanente tensão forneceram à intuição do homem os fundamentos do que ele é e faz, e a intuição desses fundamentos, ao orientar o homem na constante tensão entre manutenção e renovação da vida, constitui o que chamamos de civilização.
A atividade pedagógica e filosófica de Manuel García Morente está ligada ao movimento que José Ferrater Mora e Julián Marías chamaram de Escola de Madri, o núcleo de intelectuais espanhóis que atuaram, na primeira metade do século XX, em torno da Universidade de Madri e da Revista de Occidente em seu comprometimento com a renovação cultural na Espanha. Entre esses intelectuais estão Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset, Xavier Zubiri, e Manuel García Morente.
Na era do homem-massa que foi o século XX (e que se estende ao século XXI), tornou-se patente o processo de dissolução das bases do mundo ocidental. José Ortega y Gasset plasmou em A Rebelião das Massas a consciência do declínio civilizacional do Ocidente, apresentando-nos o personagem conceitual do homem-massa, que é a imagem do homem sem história, do burguês consumidor das comodidades da era liberal industrial, fazendo-nos intuir nesse personagem a figura de um homem cuja vida já não é governada em essência pelos laços com os elementos de um passado histórico que dê sentido à sua vida. A vida do homem-massa – que Ortega y Gasset também chama de señorito satisfecho – se traduz num presente sem história vivido em instantes soltos que, pela ausência de sustentação num passado vivo, não se projeta para um futuro, ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, celebra no vazio a ideologia do progresso contínuo.[5]
Numa escala diminuta, assim como percebemos que a vida de cada indivíduo não se sustenta em si mesma, mas no que traz consigo dos costumes e valores herdados de seu núcleo familiar, a vida civilizada só pode existir e modificar-se de forma virtuosa se cada instante de nossa caminhada traz consigo vivo um passado que lhe dá sustentação e lhe fornece pontes para fazer a travessia em momentos de crise.
Assim como a base da sociedade é a família (ou o indivíduo amparado historicamente no grupo familiar), a base da civilização é a tradição (ou a cultura historicamente amparada no passado que nos orienta no presente). As lições de filosofia de García Morente nos devolvem, através dos problemas intelectuais examinados ao longo deste livro, não um passado idealizado à maneira de um conservador tacanho, mas como bússola no presente capaz de orientar o homem civilizado em direção ao futuro. E é nesse sentido que o aspirante a filósofo deve reconectar-se com a tradição para avaliar melhor o presente e prospectar um futuro não em puras idéias, mas na experiência concreta da humanidade e traduzi-la em conceitos que confronte o íntimo de sua existência e se incorpore à sua vida. Como ensina Chesterton, romper o isolamento do presente é participar no diálogo da democracia dos mortos.
As lições preliminares que o leitor tem nas mãos não se propõem ser uma história completa da filosofia, mas uma chave para a compreensão da dinâmica da filosofia no tempo. Uma história da filosofia mais abrangente seria, por exemplo, a de Émile Brehier, ou Frederick Copleston, ou Guillermo Fraile, entre outros. Estas proporcionam um excelente panorama histórico e possuem importância nada desprezível para a educação do filósofo ou pessoa culta. Mas as lições de García Morente permitem compreender em profundidade como o filósofo maneja o pensamento diante dos problemas reais que encontra no caminho, e nesse sentido se incorpora ao estrito rol das obras de ensino da técnica filosófica, tais como O Ponto de Partida da Metafísica de Joseph Maréchal ou Introdução à Filosofia de Julián Marías – este último, discípulo de García Morente.
O formato desta edição
Cabe aqui ainda a seguinte observação: a edição original desta obra a dispõe em sucessivas lições. A divisão destas lições em “excursões” foi por mim acrescentada considerando que ela expressa bem a lógica estabelecida pelo autor logo na primeira lição, a qual será reiterada ao longo do curso. Sem alterar a ordem ou o conteúdo das lições, agrupei-as simplesmente nas cinco partes apontadas por García Morente para tornar claro cada assunto tratado. Além disso, foram acrescentadas algumas notas de rodapé onde julguei necessário aclarar ao estudante temas com os quais pode não estar familiarizado.
Rogo ao leitor que não estranhe o tom oral do texto, posto que este livro é resultado de transcrições de um curso dado pelo autor na universidade a seus alunos. A decisão por preservar a expressão oral tem o intuito de enfatizar o tom de conversação no presente, o que, penso, confere à sua expressão o condão de falar diretamente ao íntimo do leitor, o que a formalidade fria de um tratado erudito dificilmente lograria fazer.
Notas
[1] Para que não seja cometida injustiça com a Mestre Jou, deixo claro que as supressões no texto original não foram feitas por seu tradutor, Guillermo de la Cruz Coronado, mas pelos responsáveis pela edição espanhola, na qual está baseada a edição da Mestre Jou.
[2] A edição original argentina foi publicada em 1938 pela Universidade de Tucumán, passando a ser publicada a partir da segunda edição em 1941 pela Editorial Losada, enquanto a primeira edição espanhola foi publicada em 1943 pela Espasa-Calpe.
[3] Pretendemos publicar à parte, num volume de ensaios do autor, os dois artigos acrescidos à edição espanhola, o que parece-nos mais coerente no sentido de preservar a concepção original das Lições Preliminares de Morente.
[4] A.-D. Sertillanges. A Vida Intelectual. Campinas: Kírion, 2019. p. 16.
[5] Em seus “Ensaios sobre o progresso”, Morente se debruça sobre o tema do ideal moderno de progresso como motor da decadência ocidental por meio da dissolução dos laços históricos com o passado.
